Você perguntou, Brian Wood respondeu


Postado por Redação Vertigo em 27 de novembro de 2009.
Este texto faz parte das seções Blog, Séries, Vertigo, Vikings, ZDM - Terra de Ninguém.

Brian Wood (Fonte: www.spycomics.com)

Brian Wood (Fonte: www.spycomics.com)

Brian Wood escreve, todo mês, uma edição de ZDM – Terra de Ninguém, outra de Northlanders, está retornando à sua criação Demo para uma minissérie (tudo na Vertigo) e prepara outra mini com os vilões DV8, da Wildstorm, também para 2010. Além disso, vez por outra ilustra uma página de ZDM, ou volta a criar histórias de sua primeira HQ, Channel Zero. E tem uma filha de 3 anos, que está sempre corujisticamente fotografando.

Saber disso tudo só torna mais legal o fato de Wood ter tirado um tempo para responder, via e-mail, às perguntas que seus fãs deixaram neste blog. Ele infelizmente não pôde responder todas. Mas convenhamos: ele não ter respondido tudo corresponde aos minutos que sobraram para a mente do roteirista conceber novas páginas de ZDM e Northlanders. No fim, você saiu ganhando.

Confira abaixo o que Brian Wood tem a dizer sobre processo criativo, os finais de ZDM e Northlanders, dicas para quem quer ser escritor e inclusive uma bola quicando para o festival ou convenção que quiser convidá-lo para vir ao Brasil…

Quem quiser conferir a versão em inglês, é só olhar abaixo deste post!

Do leitor JOAO GILBERTO

E ai Mr. Wood,
Até o momento você só trabalha com historias autorais sem relação com o universo super herói. Bom, isso foi escolha própria ou foi acontecendo naturalmente? E com quais personagens Marvel e DC gostaria de trabalhar? Se é que gostaria (pergunta clichê de fã, hehe)

Comecei a ler recentemente a sua obra mas já virei fã
[Nota: Brian Wood escreveu Geração X, na Marvel, entre 2000 e 2001]


Foi um pouco das duas coisas… Comecei nos quadrinhos com as minhas próprias criações, projetos que fiz na faculdade de artes, então nunca me ocorreu trabalhar em uma série de propriedade de uma editora. Portanto, no início, foi algo natural. Mas com o passar do tempo, fora algumas pequenas exceções, tentei continuar a criar obras originais, porque é melhor pra mim, é mais divertido e mais lucrativo, e acho que é melhor para a indústria de quadrinhos quando ela é recebe injeções de novas ideias e novas séries.

Do leitor ALEX_RP

Vendo pelo site dá pra perceber o tema da pergunta. Estou fazendo meu TCC em cima da HQ ZDM. O mote jornalismo e quadrinho e as influências do jornalismo de guerra. E seria de muita ajuda algumas perguntas para o trabalho final.
Vou ser chato e mandar mais de uma pergunta.
Brian, de onde veio a ideia da história de ZDM?
Já existe um final determinado para HQ?
Mathew Roth é baseado no fotografo de guerra Mathew Brady? E o sobrenome dele tb?
Além dos filmes qual sua maior influência para escrever as histórias?

A ideia para ZDM veio de várias fontes – meu trabalho original Channel Zero, que pode ser considerado um prequel de ZDM, vários fatos políticos e atuais, e a paixão por filmes dos anos 70 como Fuga de Nova York e Desejo de Matar. Tudo isso estava na minha cabeça ao mesmo tempo e, enfim, ZDM nasceu. E sim, a série já tem um fim planejado, e pelas minhas estimativa teremos mais dois anos da revista mensal até a conclusão. Serão mais ou menos 12 volumes, em coletâneas, no total.

Não conheço Matthew Brady, então não. Matty veio puramente da minha cabeça, “Roth” é porque um dos meus escritores favoritos é Philip Roth.

Minhas influências são principalmente literárias: romances policiais escandinavos, Russel Banks, uma monte de livros de não-ficção sobre história e guerras, e todo tipo de música. Tenho muito ciúme de compositores. Eles podem contar histórias inteiras só com algumas frases. Adoraria escrever músicas algum dia.

Do leitor AUGUSTO LIMA

Brian, como funciona seu processo de trabalho? Envolve muita pesquisa?

Pesquiso muito. Provavelmente pesquiso demais, mais do que preciso, mas é porque me vicio. Cada um dos meus dois grandes projetos atuais, ZDM e Northlanders, me fez ler dezenas de livros cada um, e no caso de Northlanders, viajar à Islândia e à Noruega (talvez eu ainda visite a Finlândia e a Groenlândia no ano que vem). Então meu processo de trabalho envolve muita leitura, olhar bastante para a parede, fazer muitas anotações, até o momento em que me sento na frente do roteiro e escrevo. Geralmente escrevo uma HQ em dois ou três dias, no máximo.

E eu coloco links, nos próprios roteiros, para websites de pesquisa que crio especificamente para meus artistas. Northlanders tem um website secreto com o trabalho acumulado de muitos anos de pesquisa, então se descrevo um determinado tipo de casa, ou igreja, ou armamento, posso linkar para imagens. Acho que é melhor o artista gastar seu tempo desenhando do que caçando referências na internet.

Do leitor ALESSANDRO

Quais são suas principais referências literárias?
Quais os livros que mais gosta?

Henning Mankell, Russell Banks, Michael Gruber, alguns livros de John King (Human Punk e White Trash), Wells Tower… a lista é infinita, estes são só alguns.

Do leitor LUIZ

Olá sr. Wood. A hq ZDM é fantástica! Gostaria de saber se você acha que futuramente nos EUA, ou em qualquer país desenvolvido, pode haver algo parecido com a Manhattan de ZDM. Abraços e obrigado.

Pela minha própria sanidade e paz de espírito, tenho que resonder não, porque é uma ideia maluca demais para contemplar com seriedade. Gosto de imaginar que o senso comum prevaleceria antes que isso acontecesse. Ao mesmo tempo, aconteceram coisas nos EUA depois do 11 de setembro que seriam inimagináveis alguns meses antes… veja Louisiana depois do Furacão Katrina, com cadáveres pelas ruas e o governo sem poder (ou sem querer?) ajudar de verdade… Faz você temer o pior para a próxima crise.

Do leitor HUGO ANDRÉ (MUSGUS)

Brian, para escrever Northlanders você se utilizou de algum tipo de pesquisa histórica? Se sim, qual autor ou fontes você usou? Se não, de onde tirou inspiração para construir essa incrível história? Acompanhei até a décima primeira edição americana e adorei. Gostaria de saber também se a série ja tem um fim pré-determinado. Parabéns pelo excelente trabalho.

Esta é uma lista parcial do blog de Northlanders: http://northlanders.tumblr.com/post/242809186/northlanders-research-source-list . E a série não tem um fim no sentido tradicional, já que não tem uma única história, e é mais uma pilha de graphic novels conectadas pelo mesmo tema. Então posso continuar escrevendo-as para sempre. Espero pelo menos escrever as histórias para as quais tenho anotações, que devem durar mais dois anos.

Do leitor LIOMAR

Sr. Wood, como começou a escrever quadrinhos? Sempre foi um desejo seu ser escritor, se não como foi acontecendo esse desejo?

A versão resumida é que fui primeiro um artista de quadrinhos, mas não confiava em ninguém para escrever minhas histórias ou para criar uma história que eu desenhasse. Então decidi escrever eu mesmo. Com base no meu primeiro trabalho, Warren Ellis me convidou para trabalhar com ele em Geração X, na Marvel, e acho que foi por essa época que eu não só me apaixonei por escrever, mas percebi que tinha várias ideias, várias histórias que queria contar, mas por uma razão ou outra não poderia, ou não queria desenhá-las. Meu estilo de desenho é muito específico, muito limitado, e só funciona mesmo para alguns tipos de histórias.

Do leitor MAURICIO

Olá, Sr. Wood!! Uma vez o Joe Quesada, da Marvel, disse ser muito difícil um roteirista de língua não-inglesa conseguir algo nos EUA. O que o senhor acha disso? Então caso um brasileiro tivesse o sonho de ser roteirista de HQ nos EUA, o melhor a fazer é desistir? Obrigado pela sua atenção!! E obrigado por fazer bons quadrinhos!!

Acho que é difícil para QUALQUER escritor conseguir trabalhar nos quadrinhos americanos, mas isso não devia impedir ninguém, inclusive você. A chave, e eu digo isso para todos, é ser publicado e usar esse trabalho publicado como amostra, ao invés de ficar escrevendo propostas. Um trabalho de verdade, publicado, completo, é a melhor coisa para apresentar. E se o trabalho for bom, não importa qual é a sua língua nativa. Assim espero!

Do leitor LEXY SOARES

Caro Brian. Como você imagina que suas obras podem tocar os leitores de outros países? Você acredita que histórias aparentemente “americanas demais”, como ZDM ou Local possuem apelo para o público fora dos EUA? E como uma obra crítica como ZDM pode afetar o modo com os estrangeiros olham para a América?

Acho que possuem apelo. ZDM é publicada em cinco idiomas, Local e Demo foram indicadas e ganharam prêmios na Itália. Houve uma grande exposição de ZDM na convenção  Lucca Comics+Games na Itália, alguns anos atrás, e eu pude viajar até lá e aparecer na televisão falando sobre a série. Northlanders começa a seguir este caminho, com edições publicadas na Alemanha, na Itália e, obviamente, no Brasil. Não tenho intenção de escrever de um jeito “nacional” ou “internacional”, mas sempre achei que acessibilidade é a chave para o sucesso, escrever histórias e criar personagens com quem, acima de tudo, você possa se identificar… e acho que funciona, em grande parte. Minha carreira se baseia nisso!

ZDM tem sido meu grande sucesso internacional – acho que já são 19 volumes da série que foram impressos em idiomas que não o inglês – e acho que deveria haver mais quadrinhos críticos como este. Acho que é muito melhor mostrar ao mundo que os EUA têm uma indústria de quadrinhos complexa, crítica e variada, e que podemos lidar com assuntos sérios e nossos personagens não precisam estar vestindo fantasias para tanto.

Do leitor ROBSON SOBRAL

A experiência como designer influencia ou colabora no seu trabalho nos quadrinhos além das capas?

Acho que minha formação como artista ajuda a escrever, a não sobrecarregar o artista com detalhes ou ângulos e layouts de página difíceis. Tento pensar como o artista quando escrevo e tornar as coisas simples e eficazes. E quando tenho que escrever algo complicado ou que levarei muito tempo para desenhar, fico cheio de culpa!

Do leitor ALLAN CHAVES

- Como você se sente ao ser considerado um dos melhores roteiristas da atualidade: com grande poder, ou com grande responsabilidade?
- Qual conselho você daria para quem pretende escrever alguma HQ? E para quem pretende seguir carreira profissional?
- Suas histórias se passam em ambientações e tempos diversos. Já pensou em escrever alguma trama que se passe no Brasil?
- Você leu algum quadrinho brasileiro? O que achou? E os artistas brasileiros, conhece e gosta de algum?
- Quais as hqs que mais te marcaram? Quais você recomenda incondicionalmente?

Vou responder estas em lista:

1. Eu não sabia que era considerado um dos melhores. Não tenho certeza se me sinto um dos melhores. Então a melhor forma de responder isto é dizer que um escritor ou escritora, para fazer bom uso de sua habilidade ao escrever, não pode ficar pensando demais no público enquanto escreve. Você escreve primeiro para você, senão acaba refletindo demais sobre as coisas e termina com uma história bagunçada. Você nunca vai agradar todo mundo.

2. O único jeito de ser escritor é escrevendo. Sei que isso pode soar petulante, mas é verdade. Você torna-se um escritor escrevendo sem parar. Publique-se sozinho primeiro para que seu trabalho esteja disponível, se precisar. Quando mais escrever, mais rápido vai melhorar, e a pior coisa que pode fazer é se fixar em detalhes ou preocupar-se que escreve mal. Um conselho para todos: seu trabalho É ruim, no começo. Aceite isso e continue a escrever, siga em frente, e logo você deixa de ser ruim e começa a ficar bom.

3. Conheço muito pouco do Brasil. Teria que visitar o país antes.

4. Só conheço mesmo Gabriel Bá e Fábio Moon, que são, obviamente, fantásticos. Mas sinto que deveria conhecer mais.

5. Os quadrinhos que me marcaram: Vagabond, Preacher, Ódio, The Last American, Love and Rockets, várias coisas que a Vertigo publicou no início da linha, como Como Matar seu Namorado, Girl, Enigma etc. Gostaria muito que todas fossem republicadas. Ódio, o gibi indie que Peter Bagge fez nos anos 90, é minha favorita de todos os tempos.

Do leitor ANDERSON B.

Tenho várias perguntas para o sr. Wood.
1. Seus primeiros trabalhos eram desenhados por você mesmo. Hoje, salvo engano, essa atividade se restringe a capas e uma ou outra página em ZDM (sempre são as minhas favoritas!). O que o levou a praticamente abondonar os desenhos? É uma questão de tempo ou falta de interesse (seu ou das editoras)? Você sempre se considerou mais escritor do que desenhista? Pretende voltar a desenhar regularmente algum dia?
Curiosamente, esse é um caminho muito similar ao de Brian Bendis (fora o fato de você não estar escrevendo metade do Universo Marvel!) e, em menor grau ao de Bill Willingham. Você vê alguma relação com esses autores ou é mera coincidência?
2. Pelo seu trabalho, pode-se ver que você tem diversos interesses além dos quadrinhos. Você poderia comentar sobre suas influências/referências em música, design, jornalismo, literatura e/ou outras áreas fora dos quadrinhos?

1. Acho que já respondi essa, em grande parte. Acrescentando ao que havia dito, não sou um artista muito veloz, e os quadrinhos são um campo onde os artistas precisam ser o mais rápidos possível, se você quiser viver disso. Também não acho meu estilo muito comercial. Lembro que depois que fiz as 14 capas para Frequência Global, de Warren Ellis, e recebi uma indicação ao Eisner Awards por elas, ninguém me contratava para fazer capas, nem mesmo a Wildstorm (que publicou Frequência Global). Mesmo depois de ZDM, ninguém me procura para desenhar quadrinhos. Acho que não nasci para isso.

Brian Bendis e eu começamos na Image Comics na mesma época, escrevendo e desenhando nossos quadrinhos autorais em preto e branco (o meu era Channel Zero, o dele Jinx). Obviamente, nossas carreiras são bem distintas hoje, de forma que não vejo nenhuma conexão entre nós.

2. O que Northlanders me ensinou foi a não ter medo de assumir grandes riscos criativos e tentar coisas novas. Então planejo ser o mais variado possível no futuro. No momento estou começando uma proposta para a Vertigo para meu próximo projeto, que vai começar pela época em que ZDM terminar (daqui a dois anos) e todas as ideias que tenho são bem diferentes do que já fiz. O que é bom, já que não me deixa ficar entediado!

O Blog Vertigo agradece a simpatia de Brian Wood por ter encontrado um tempo em sua atarefada agenda para responder a algumas perguntas de seus fãs brasileiros. Você encontra os trabalhos do autor mensalmente em Northlanders, na revista Vertigo, e em ZDM, nas livrarias. Um obrigado também aos leitores que participaram da entrevista!


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5 comentários para
“Você perguntou, Brian Wood respondeu”

  1. Aarom disse:

    Panini, o Brian citou alguns quadrinhos: Como Matar seu Namorado, Girl, Enigma . Me interessei mto, então, por favor, publiquem. Mto massa a entrevista!

  2. Alexandre Melo disse:

    Parabéns pela iniciativa, a entrevista é ótima, e espero por outras mais no futuro.
    Ver a Vertigo ter tal tratamento é recompensador a todos que gostam de bons quadrinhos.
    Congratulações pelo trabalho a vocês da PANINI.

  3. Lucas Pimenta disse:

    Como matar seu namorado é excelente! Publiquem!

  4. eder vinicius disse:

    zdm tem fim em qual ediçao? brian vc é o cara!

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