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Você está na Frequência Global?

10/12/2009
Postado por Redação Wildstorm.

Smart mobs e inteligência coletiva no mundo dos quadrinhos
Por Fabio Fernandes

Os jornalistas que cobravam “coerência” e “objetivos” dos grupos de flash mobbers que tomaram a Avenida Paulista de assalto em agosto de 2003 não fizeram seu dever de casa: confundiram o conceito de flash mob (evento aleatório e não utilitário inspirado no dadaísmo, mas criado na verdade por adolescentes finlandeses como forma de marcar encontros-relâmpago em shoppings) com a ideia de smart mobs, visualizada por Howard Rheingold em seu livro mais recente, Smart Mobs: The Next Social Revolution.

Nas palavras de Rheingold: “multidões inteligentes (smart mobs) emergem quando as tecnologias de comunicação e computação amplificam os talentos humanos de cooperação. (…) Manifestantes de rua nos protestos anti-OMC em 1999 utilizaram websites atualizados de modo dinâmico, celulares e táticas de ‘enxame’ na ‘batalha de Seattle’. Um milhão de filipinos derrubaram o presidente Estrada com manifestações públicas organizadas por saraivadas de mensagens de texto.”

Em outras palavras: rebeldes com causa reunidos na hora certa e lugar certo graças à tecnologia. As smart mobs podem até ser multidões-relâmpago como as flash mobs, mas com uma diferença fundamental: elas formam uma inteligência coletiva.

Segundo Pierre Lévy, em A Conexão Planetária, a inteligência coletiva emerge de processos de cooperação competitiva, ou seja, um tipo de competição que se baseia essencialmente nas capacidades cooperativas dos agentes concorrentes. Lévy postula que o ciberespaço é um meio particularmente favorável ao desenvolvimento de uma inteligência coletiva global da humanidade.

Enquanto esse momento (bastante semelhante ao conceito de noosfera proposto por Teilhard de Chardin e que também é abordado por Lévy nesse livro) não chega, smart mobs podem servir como uma espécie de teste beta para a construção de uma sociedade mais igualitária e colaborativa. E não só no mundo real.

Frequência Global 1, Panini Comics

Frequência Global 1, Panini Comics

Inteligência underground wireless

A ficção científica — que, desde os tempos do Movimento Cyberpunk, mantém um diálogo permanente com o underground revolucionário — acrescenta mais um elemento de discussão do potencial das smart mobs na forma de uma série de quadrinhos: Frequência Global.

Criada pelo escritor inglês Warren Ellis, Frequência Global demonstra, em doze episódios, uma possível aplicação prática das smart mobs por meio de uma organização criada para proteger o mundo de qualquer tipo de ameaça.

Mas não espere nada parecido com paramilitares ou fuzileiros navais americanos fazendo justiça com as próprias mãos em nome do “mundo livre” (que se resume aos EUA, evidentemente). Ellis é inglês, e como todo escritor inglês de quadrinhos que se preza desde Alan Moore e Neil Gaiman, tem uma visão bastante crítica das instituições. A Frequência Global não é militar, é desvinculada de qualquer nação ou ideologia, e seus membros — que são sempre mil, nem mais nem menos — estão espalhados por todo o mundo, pertencentes às mais diversas classes sociais, religiões, cores e sexos. Indivíduos com as mais diversas habilidades — hackers, médicos, físicos, policiais, entre muitos outros — são convocados tendo como critério básico a proximidade do local do problema. Que pode ser uma invasão alienígena no centro de Nova York por um vírus de computador, até uma bomba com antraz na roda-gigante de um parque de diversões londrino, ou fanáticos religiosos fora de controle na Austrália.

A Frequência Global não é uma instituição, mas a corporificação do conceito de inteligência coletiva: não existe um escritório para sediá-la, por exemplo. A única base de operações é a sala onde trabalha Aleph, literalmente uma cyberpunk (com direito ao visual de cabelo tipo iroquês dos punk rockers londrinos dos anos 1970), que monitora por satélites as comunicações entre todos os integrantes da Frequência (todos têm um celular especial e exclusivo) e os coloca em contato uns com os outros e com Miranda Zero, a misteriosa coordenadora do grupo.

Micro-smobs

Mas nas histórias que compõem a série, o mais importante não é o celular, que nem é utilizado com todas as suas potencialidades (o recurso de vídeo, por exemplo, só passa a ser incorporado na nona história), e sim o conceito de inteligência coletiva. O grupo de especialistas cooptados por Miranda Zero não compõe uma daquelas equipes de super-heróis de roupas colantes. Pelo contrário: são pessoas comuns, como eu e você, convocadas mais ou menos da forma como nos Estados Unidos e na Europa se convocam, em algumas cidades pequenas, cidadãos para trabalhos voluntários em brigadas de incêndio.

Só que é uma brigada de incêndio espalhada por todo o planeta, e seus membros, embora mil, nunca se reúnem ao mesmo tempo no mesmo lugar. A mobilidade e a capacidade de organização de subgrupos é o grande trunfo da Frequência Global. É o que poderíamos chamar de micro-smobs: pequenas smart mobs prontas para o que der e vier.

O próprio Ellis, embora recuse qualquer rótulo de guru, é o centro de uma rede que se formou ao redor de sua presença na internet por meio de websites (WARRENELLIS.COM), fóruns, boletins por e-mail e outras ações. Foi por esse boletim, o BAD SIGNAL, que os londrinos ficaram sabendo da primeira flash mob inglesa, em 2003. Os membros da Frequência de Warren Ellis são bem mais do que os 1000 integrantes da Frequência Global, o que nos leva a pensar: o que as inteligências coletivas que já estão começando a se formar, nessas comunidades virtuais, poderiam fazer para ajudar o mundo?

FÁBIO FERNANDES é jornalista, tradutor, escritor, roteirista, dramaturgo, professor e pesquisador, o que faz dele uma smart mob de um homem só. http://www.verbeat.org/blogs/posestranho/

2 comentários
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2 comentários para
“Você está na Frequência Global?”

  1. Dannilo disse:

    Já conhecia o conceito de “flash mob”, mas não tinha feito o link com o tema da série. Até porque a conheci há pouco tempo.

    Espero que textos como este sempre sejam publicados por aqui, pois, além de enriquecerem a leitura da série, estimulam reflexões e debates.

    Muito bom!

  2. PLAUNS disse:

    Muito boa a relação entre o Pierre Lévy e a F.G. Ambos são muito bons.

    Acho que a utilização desses portais sociais como orkut, facebook e twitter, são bons exemplos de como as pessoas estão convergindo, e se indentificando umas com as outras. Não demora pra essas numerosas comunidades tornarem-se smart mobs em potencial; pelo menos quero acreditar nisso…

    Parabens pelo post



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